HISTÓRIAS DA RTR

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“O melhor tempero da comida é a fome.”
Cícero

Já se passaram mais de 20 anos, contudo, existem fatos que teimam em permanecer indeléveis em nossas lembranças. O escritório, desde que foi fundado, há 36 anos, sempre possuiu um time de futebol, motivado não só pela fervorosa paixão por este esporte, mas também pelo anseio de integração dos seus componentes em uma grande família.
O sogro do Ricardinho, S. Lago, à época diretor do Serrano Futebol Clube de Petrópolis, conseguira marcar um jogo amistoso com o time local de futebol de salão. Para tal embate, a nossa equipe, contava, dentre outros jogadores, com Ricardo Alves da Cruz; Marcello Mancilha; Ney Pimenta; Romario Melo; e Edenir Nascimento. Havíamos saído direto do trabalho, subimos a serra, e nos encontramos na casa do Ricardinho, onde sua esposa, Leydir Cruz, preparara um saboroso jantar, para que, após a peleja, pudéssemos nos refazer do esforço empreendido. Estaria a nos aguardar, duas grandes travessas, uma repleta de espaguete, e a outra, com farta quantidade de carne assada ao molho madeira. Suficientes para debelar a fome daquela equipe de atletas de finais de semana. No entanto, ao chegarmos na casa do Ricardinho, antes de nos dirigirmos àquele esperado jogo, Leydir, gentilmente, perguntou se todos não gostariam logo de jantar, ficando devidamente alimentados para o evento esportivo. O único a responder afirmativamente foi o amigo Edenir, que mesmo sabendo do grave risco de ir jogar futebol com o estômago cheio, se refastelou solitariamente à mesa e começou a servir-se daquele vasto repasto. Quando os demais companheiros foram lhe chamar para, enfim, se dirigirem ao futebol, ficaram surpresos, boquiabertos, incrédulos com o que viram. O companheiro Edenir havia limpado literalmente as duas travessas. Ou seja, comera completamente a comida existente, preparada que fora para todos os jogadores, sem deixar uma migalha sequer. O que fazer, pensaram todos… Afinal, não haviam avisado previamente o amigo que teria limites para a sua irrefreada fome. Assim, partiram para aquela contenda, mas sabedores que não mais voltariam para o jantar, como também, deveras preocupados com o desempenho do parceiro Edenir, visto a grande quantidade de alimento antecipadamente ingerido. Lêdo engano, o mesmo não só jogou muito bem, como correu muito mais que todos os demais jogadores. Ao final da contenda, com a vitória da nossa equipe, e para saciar a fome daqueles privados do jantar da Leydir, fomos para um restaurante, onde, também, comemoraríamos aquele triunfo futebolístico. Pensamos que o dileto amigo Edenir estivesse satisfeito e fosse se abster de fazer nova refeição, até porque, poucas horas antes,  já houvera procedido um mais que exemplar repasto. Novo equívoco, ele não só jantou novamente, limpando inteiramente o seu substancioso prato, como também devorou uma farta sobremesa. Um fenômeno que todos da RTR jamais esquecerão. Afinal, para comer e coçar… é só começar!

O SONO DO COMANDANTE

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“Vocês riem de mim por eu ser diferente, e eu rio de vocês por serem todos iguais.”
Bob Marley

A vontade de narrar uma boa crônica sempre esbarra no inconveniente do protagonista admitir serem ou não verídicos os fatos e, com isso, acabar sendo apenas ficção ou uma fantasia. Por isso, resolvi ir na fonte, perguntei logo ao dileto amigo Paracelso Sant’anna acerca da história que me fora contada por um colega em comum que, como ele, também comanda e pilota aviões. Confirmada a sua autenticidade, passarei a transcrevê-la abaixo sem qualquer inconveniente. Retornava o amigo ao Brasil em um vôo no qual o comandante era o nosso querido companheiro Paracelso. Este, ao avistar o citado colega de trabalho, gentilmente o convidou a proceder a viagem dentro da cabine de comando da aeronave, onde, não só poderiam trocar ideias, como também estaria o mesmo melhor acomodado. Assim, transcorria normalmente aquele vôo Internacional até que anoiteceu. Em certo momento, o nosso comandante Paracelso, deixando o comando com o co-piloto, saiu da cabine e se dirigiu ao banheiro da aeronave, retornando, logo após, vestindo um confortável pijama de flanela estampada, macias pantufas de pelica negra nos pés, e uma protetora e estilosa touca, estilo papai-noel, a cobrir-lhe a extensa calva. Ou seja, devidamente aparamentado para uma boa e relaxante noite de sono. O amigo, espantado com tanta sofisticação, perguntou ao comandante Paracelso acerca daquela momentânea transmutação noturna. Obtendo deste a seguinte resposta:
– Como já dizia o grande Napoleão Bonaparte: “tornamo-nos no homem do uniforme que usamos”. Assim, se vou a praia ou a piscina, uso sunga de banho; se estou na direção da aeronave visto o quepe e as insígnias de comandante; se compareço em um casamento, certamente usarei um sóbrio e elegante terno. Então, se irei dormir, também o farei a caráter, e por óbvio que esta será a minha farda, a minha indumentária!” Dito isto, passando o comando para o co-piloto, e desejando uma boa noite a todos, recostou-se confortavelmente em sua poltrona, e como só os puros d’alma conseguem, adormeceu profundamente o sono dos justos.
Existem pessoas singulares, contudo, este meu benquisto amigo Paracelso Sant’Anna superou em muito esta simplória qualificação, ele é  simplesmente, … PLURAL. O que torna uma pessoa única não são as roupas que veste, a forma de se expressar, ou mesmo algo que a diferencie dos demais, mas o legado das boas histórias que carrega.

O ESCUDO DO BANGU

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A imagem, associada a uma pessoa, pode significar muito aos olhos de quem vê. O Bangu A.C. era o Castor.

Éramos advogados do Bangu e da Liga das Escolas de Samba, esta por indicação do Dr. Castor. Advogávamos, também, para uma grande rede de hotéis, que tinha como seu dono e presidente o Sr. Walter Ribas que, como o Dr. Castor, possuía, a época, um Mercedes Bens. Este empresário, solicitou-nos que pedíssemos ao Dr. Castor um escudo do nosso Bangu, igual aquele que o mesmo ostentava, colado ao vidro do seu veículo. Certamente, fizemos o pedido, o que foi prontamente acedido pelo nosso patrono. Contudo, curioso com a solicitação,  visto ser sabedor que o requerente torcia por outro clube, perguntou o motivo do famoso empresário querer um emblema do Bangu. A explicação o fez dar boas risadas. O empresário queria segurança. O escudo do Bangu em um carro de luxo, certamente faria os ladrões pensaram duas vezes antes de cometerem qualquer desatino. Era um subliminar salvo conduto. Qual bandido, em sã consciência, assaltaria o carro que poderia ser o do Dr. Castor de Andrade?

A BRIGA

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“Como alguém que pega pelas orelhas um cão qualquer, assim é quem se mete em discussão alheia.”
Bíblia – Provérbios – 900 AC.

Certamente vocês já ouviram a frase – “em briga de marido e mulher… ninguém mete a colher”, se não ouviram, aconselho que se lembrem bem dela, sempre que virem algum casal discutindo ou brigando, pensem bastante antes de palpitar ou tentar apartar qualquer conflito alheio.
Acredito que tal evento tenha ocorrido lá pelos idos dos anos 1980/81, o local, a Av. Cônego Vasconcelos, atrás da igreja de S. Sebastião e Santa Cecília, em Bangu. Estávamos no carro eu e o meu tio, rumávamos para a residência do outro tio, na Rua Fonseca, quando fomos surpreendidos com os sofridos gritos de uma mulher. A nossa frente, um jovem casal discutia ardorosamente, tendo o rapaz acabado de desferir um violento tapa no rosto daquela indefesa moça que, toda descabelada, sangrava pelas narinas e estampava o rosto já todo marcado, provavelmente das agressões sofridas. Contudo, briosamente continuava discutindo com a veemência de quem é a detentora da razão. Confesso que tal quadro me deixou revoltado, mas continuei o meu caminho. Afinal, a briga não era minha, poderia, se fosse o caso, chamar a polícia para resolver tal querela, pois, desde cedo, aprendera que em briga de marido e mulher não se mete a colher. No entanto, o meu dileto tio, defensor dos fracos e oprimidos, visivelmente inconformado com aquela notória covardia, me obrigou a retornar, para que ele, imbuído dos mais nobres princípios Quixotescos, tentasse socorrer aquela infeliz donzela das garras do seu cruel algoz. Muito a contragosto obedeci, mas não sem antes ter insistido, ainda que em vão, que ligássemos para a polícia. Lá chegando, deixei claro que aguardaria no carro, enquanto o meu tio se encarregava de apartar aquele conflito de consortes. Reparei até o momento em que ele, calmamente, conversava com o beligerante casal. Quando me dei conta, a briga já envolvera o pacifista do meu tio, que agora, travava um desigual desforço pessoal com aquele agressivo homem, maior; mais jovem; e mais forte que ele. Não pensei duas vezes, num só pulo, desci do carro, e sem qualquer aviso prévio, desferi um potente soco naquele indivíduo, que ao meu ver, brigava imotivadamente com o meu bem intencionado tio. Com o impacto e o fator do imprevisto, o jovem caiu atordoado ao solo. Me virei, e já ia retornando ao carro, puxando o meu tio pelo braço, quando fui impactadamente surpreendido. Aquela jovem mulher, tal qual uma furiosa felina, saltara sobre as minhas costas, repetindo, aos gritos: “você machucou o meu homem!” E não parou por aí, começou a me arranhar; morder; socar; e rasgar toda a minha roupa (na oportunidade estava de paletó e gravata). Enfim, parecia um animal raivoso que caíra abrupta e violentamente sobre os meus ombros. Em poucos segundos, a moça que supúnhamos frágil e indefesa, já havia rasgado as minhas roupas, mordido minhas orelhas, que sangravam abundantemente, e arranhado completamente o meu rosto. Aquela parada, definitivamente, não deveria ter ocorrido. Com muita dificuldade consegui me desvencilhar daquela verdadeira “fera”, corri com o meu tio para o carro, sem sequer olhar para trás e, literalmente, fugi daquele improvável conflito no qual jamais deveria ter me metido. Mas ficou a promessa e determinação de nunca mais me intrometer em qualquer briga de casal.
Chegando em casa, me lembrei de um Provérbio Bíblico, escrito há 3.081 anos passados, e que se encaixava como uma luva no ocorrido.

“O chicote é para o cavalo, o freio, para o jumento, e a vara, para as costas do tolo!”
Bíblia – Provérbios – 900 AC.

E assim, com as costas completamente moídas aprendi, dura e exemplarmente, esta milenar lição!

Pensamento do dia

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Amigos passam por nossas vidas por certos períodos. São os amigos da infância, os da juventude, da maturidade e os da velhice. O mundo dá voltas, e esses amigos, por algum motivo, acabam tomando caminhos diferentes dos nossos. Porém, nos restará a LEMBRANÇA, que é o livro onde sempre estarão  guardadas as histórias dessas amizades.

OS AJUDANTES DE ORDEM

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Ter 16 ou 17 anos é andar com a galera, é ser original, é possuir e ver eclodir o desejo de novidades, é explorar as fontes da vida, priorizando sonhos em busca do amor.

A prioridade daqueles jovens em Bangu, no ano de 1971, era namorar. Para tanto, iriam a qualquer canto ou lugar. Apesar disso, não sabiam andar só, saiam sempre em bando ou, quando muito, em dupla. Assim, o fato de conhecer uma garota que morava longe, era o implícito convite para levar, em companhia, um ou vários amigos. Afinal, as meninas tinham sempre amigas e, desta forma, unia-se o útil ao agradável. Até porque, o melhor da jornada não era propriamente o seu fim, mas o longo percurso, que compreendia a ida e a volta, onde, nas conversas, cada qual contava a maior vantagem a seu favor acerca do encontro.
Certa vez, em uma festa, no Campo dos Afonsos, onde fora acompanhado de dois amigos, (Wiliam e Charles) , fomos apresentados ao pai da garota que conhecera, na semana anterior, em um baile no Bangu Clube, o que era comum na época. O mesmo vestia um impecável uniforme azul militar, que pelas dragonas, deixava bem claro a sua alta patente na aeronáutica. Após breve e contundente recomendação acerca dos cuidados que eu deveria ter no trato com sua amada filha, este, sorrindo, olhou para os companheiros que me acompanhavam e exclamou: “você deve ser um rapaz deveras importante, pois possui dois ajudantes de ordem!”
Não haveria melhor definição, éramos ajudantes de ordem uns dos outros. Companhia e companheiros de todas as horas e momentos, principalmente nas festas e namoros que fossem distantes.
Em outra oportunidade, residindo a garota em Vista Alegre, o acompanhante foi o amigo João Bigurrilho, o qual já não vejo há mais de 40 anos. Pegamos o ônibus para Cascadura e de lá para o nosso destino. Ao chegar, tocamos a campainha e fomos logo recepcionados por um homem grisalho, com um bigode grosso e bem aparado que vestia um uniforme verde oliva do exército e, ao que tudo indica, já nos estava aguardando. Após perguntar quem éramos, se dirigiu ao amigo Bigorrilho e, com um leve sorriso, exclamou – “Então, você é o ajudante de ordem?” Seria obra do destino só conhecer filha de militar?  A palavra “ajudante de ordem” parecia estar nos perseguindo. Feitas as apresentações, ficamos sentados na varanda, eu, o amigo João, a pretensa namorada e o seu irmão menor.
Infelizmente aquela garota não possuía amigas, tampouco irmãs, mas somente aquele fedelho, seu único irmão, ainda criança, e que ficara encarregado, pelo seu pai, militar, de montar, tal cão de guarda, ferrenha vigilância no incipiente namoro da irmã. Naquela oportunidade o amigo foi providencial, pois ficou encarregado de entreter, durante todo aquele final de noite, aquele pequeno e bem mandado guardião de irmã. Jogaram bola de gude; futebol; amarelinha; várias histórias foram contadas. Enfim, como era de se esperar, se portou como um verdadeiro parceiro, propiciando beijos e carícias, que jamais ocorreriam se houvesse a presença daquele pequeno vigia.
No entanto, a hora de voltar para Bangu chegara. Eram 23:00h. Após as despedidas, nos demos conta, ao perguntar aos locais, que o ônibus para Cascadura, em seu retorno, passava bem distante daquele ponto. Resolvemos, ao avistar a Av. Brasil, nos encaminharmos para a mesma, o que até nos abreviaria o regresso, de vez que precisaríamos pegar uma única condução. Contudo, esta opção implicaria em passar por um local escuro e ermo, um campo de futebol de várzea, que existia ao lado de uma antiga pedreira desativada. Mas quem já teve 16 ou 17 anos, fé em Deus e amigos, bem sabe que, nesta idade, nada há a temer. E lá fomos nós!
O suposto local, o campo de várzea, deserto e inóspito, estava, aquela hora da noite, inacreditavelmente repleto de pessoas. E o mais interessante, todas fitavam um determinado ponto na antiga pedreira, onde, ao que na hora soubemos, um raio, na antevéspera, teria atingido o rochedo e gravando a imagem de Cristo. Fomos, então, em meio aquela turba de devotos, conferir o suposto milagre. Confesso que não ví nada além de formas rochosas que, dependendo da luz, fazia transparecer o contorno irregular de um rosto, nada mais. Porém, onde alguns apenas víam pedra, aquela crédula multidão enxergava um divinal aviso dos céus. Passamos por entre aquele constrito povaréu e continuamos nossa jornada, até pegarmos o 393 (ônibus, linha Largo de São Francisco – Bangu) que nos levaria de  regresso as nossas residências. No dia seguinte, todos os jornais estampavam, em primeira página, a notícia da imagem na pedreira, o que seria veiculado na mídia por mais de uma semana. O fato é que não mais voltamos à Vista Alegre, a imagem da pedreira caiu no esquecimento, o tempo passou e o ano de 1971 hoje, 44 anos passados, só é recordado pelos bons filmes que tanto sucesso fizeram no cinema, como Operação França; Laranja Mecânica; e O Planeta dos Macacos. Todavia, que saudade que tenho dos meus diletos amigos que, como eu, eram excelentes “ajudantes de ordem.”
Amigos passam por nossas vidas por certos períodos. São os amigos da infância, os da juventude, da maturidade e os da velhice. O mundo dá voltas, e esses amigos, por algum motivo, acabam tomando caminhos diferentes dos nossos. Porém, nos restará a LEMBRANÇA, que é o livro onde sempre estarão  guardadas as histórias dessas amizades.

O COORDENADOR

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A verdade não merece vergonha, pois a ignorância velada não se sustenta, até porque a consciência é a morada da justiça.

Fomos advogados na área trabalhista do Bangu A.C. por 1/4 de século, e durante todo este tempo nos deparamos com os mais diversos casos. No entanto, nenhum tão pitoresco quanto este que iremos narrar.
Tratava-se de uma ação de equiparação salarial, na qual o coordenador do time de futebol profissional postulava receber supostas diferenças salariais, tendo como paradigma o antigo ocupante do posto. Seria apenas mais uma demanda entre tantas outras, se o fato ensejador não fosse a saída do patrono do clube, Dr. Castor de Andrade. É que o indigitado reclamante, agora, com o afastamento citado, acreditava estar livre para acionar o seu empregador, sem contudo melindrar o seu benfeitor e padrinho de até então.
Chegado o dia da audiência, partes e advogados presentes, apresentada a defesa e inexistindo acordo, foi o feito adiado para oitiva de depoimentos pessoais e testemunhas.
Ricardinho (Ricardo Alves da Cruz) que fizera a audiência, ao chegar no escritório, e tendo achado estranho o comportamento do reclamante, solicitou-me que telefonasse para o Dr. Castor de Andrade, que mesmo ausente do clube, poderia nos fornecer maiores elementos sobre aquela relação conflituosa, que não obstante antiga, só fora deflagrada após a saída do referido patrono do clube. Telefonamos. O Dr. Castor ficou surpreso com a postura do coordenador, jamais acreditaria que o mesmo tivesse tal procedimento, não pelo fato de reclamar, o que lhe seria um direito constitucional, mas pela total falta de propósito. Assim, passou a narrar os acontecimentos. O antigo coordenador e paradigma no processo tinha formação em educação física, possuía pós graduação em futebol, e era egresso de grandes clubes, onde, na função (coordenador), fora abrilhantado com diversos títulos. O reclamante, no seu dizer, gente boníssima, bom companheiro, prestativo, engraçado, mas somente fora galgado àquela função em razão não dos seus méritos profissionais, mas por gratidão ao empenho e esforço pessoal. Acrescentando, inclusive, que por ser o mesmo analfabeto, nem teria condições de exercer plenamente tal atribuição. Dito isto, lembrei-me que, por diversas vezes, havia visto a tal pessoa, sentada em um canto do campo do Bangu, com um livro ou jornal em mãos, aparentemente fazendo sua leitura. Curioso pela incongruência, indaguei tal circunstância ao Dr. Castor, que rindo muito, exclamou: “é medo que descubram que ele não sabe ler!”
Cientes de tais fatos, na audiência em prosseguimento, fomos logo surpreendidos com um intrigante evento. A testemunha arrolada pelo reclamante, um ex jogador, pedira que justificassem a sua ausência, pois fora assaltado na véspera, tendo os ladrões, não só levado todos os seus pertences, como também lhe quebrado as pernas. Ante tal notícia, o patrono do reclamante já ia requerer o adiamento da audiência, quando, baseados nas  informações passadas pelo Dr. Castor, e após já ter observado que a procuração passada pelo reclamante para seu advogado fora por instrumento particular (o analfabeto, por disposição legal, só pode passar procuração por instrumento público) requeremos que este prestasse alguns esclarecimentos. Deferiu o magistrado, então, o depoimento pessoal. Assim, lhe indagamos sobre o fato de não ser letrado, até porque a função de coordenador impõe a feitura de gráficos, relatórios, leituras de prontuários médicos e físicos, etc…, condição negada pelo acionante, aparentemente um tanto a contra gosto. Pedimos, por conseguinte, que este lesse os termos do instrumento de mandato que assinara para o seu patrono, tendo o juiz, na oportunidade, perguntado se tal formalidade realmente se fazia necessária, o que confirmamos e insistimos fosse procedido. Ato contínuo, foram entregues os autos do processo ao reclamante, para que procedesse a leitura requerida. Este fitou aquele monte de folhas, sem sequer se aperceber que estavam de ponta a cabeça.   Ficando, por alguns segundos, parado, sem saber o que fazer. Então, um tanto constrangido e com a voz baixa, admitiu, para que somente os presentes ouvissem: “o Dr. tem razão, eu só sei desenhar o meu nome!”
Após tal esclarecimento, e a pedido do seu advogado, um velho companheiro dos corredores da justiça, o reclamante requereu a desistência daquela improvável ação. Soubemos, depois, que a pedido do Dr. Castor, o mesmo teria retornado a trabalhar no clube, onde permaneceria, ainda, por um longo tempo.
Não saber ler ou escrever não é motivo de vergonha.  A inverdade sim, avilta e constrange.